Seminário de Agricultura Orgânica

Palestras reforçam necessidade da organização dos produtores

Evento também destacou a importância da conservação do solo e do consumo dos alimentos orgânicos para a promoção da saúde humana

 

            Os temas foram diversificados, mas todos os pesquisadores, técnicos, produtores e consultores que proferiram palestras no III Seminário de Agricultura Orgânica do Vale do Ribeira reforçaram dois conceitos básicos durante os debates: a necessidade da existência e manutenção de um solo “vivo” para a prática da agricultura orgânica e a importância da organização dos produtores rurais, tanto para melhoria da produção como para vencer os desafios da comercialização. Nesta terceira edição, realizado na semana passada no anfiteatro do KKKK, em Registro, o Seminário também abordou a importância da vitalidade dos alimentos na promoção da saúde humana.

            “Quando o agricultor entender que o solo e as plantas são seres vivos, como nós, estará praticando agricultura orgânica”, comentou Paulo D`Andréa, que proferiu palestra sobre biomassa em solos tropicais. “Na natureza tudo funciona organicamente, numa cooperação entre todos os seres vivos. Para ser orgânico, o agricultor deve fazer do jeito que a natureza faz”, reforçou o engenheiro agrônomo Nelson Eduardo Correia Neto, que apresentou o trabalho realizado pelos produtores agroflorestais de Barra Turvo, na palestra de abertura do evento. Logo após, os participantes ouviram a apresentação de Esther Pallares, que compôs uma música especialmente para os agricultores da Cooperafloresta.

            O professor da Esalq/USP, Hasime Tokeshi, mostrou os resultados da pesquisa que desenvolve sobre o processo de defesa das plantas através da ação dos microorganismos, presentes em solos vivos. “Todos os seres da Terra são interdependentes e cada um vive da cooperação com os demais. Não é matando uma praga que o agricultor vai garantir a sobrevivência de uma planta; é preciso usar os recursos que a própria natureza nos oferece”. O consultor da empresa Orgânico Associados, Ricardo Cerveira, disse que o equilíbrio nutricional das plantas garante uma  convivência em níveis aceitáveis com as pragas e doenças. “Planta equilibrada cresce em solo estruturado biologicamente. E isso não acontece de um dia para outro. Como tudo na natureza, faz parte de um processo”, reforçou Leandro de Almeida Amado, da Fundação Mokiti Okada, durante sua palestra sobre microbiologia do solo.

            Experiências -  O produtor Ulysses Murakami, representante da Cooperativa dos Agropecuaristas Solidários de Itápolis (SP), fez um relato das experiências que há oito anos pratica em sua propriedade de 30 hectares, onde cultiva goiaba orgânica para extração da polpa.  O produto é exportado para a comunidade européia, através da cooperativa, que comercializa também polpa de manga e suco de laranja e limão. O produtor Joop Stoltenborg também apresentou a experiência que coordena no Sítio A Boa Terra, onde desde 1981 é praticada a agricultura orgânica, além da comercialização de cestas de legumes e verduras e um projeto de educação ambiental. Localizada em Itobi (SP), a propriedade familiar comercializa 800 cestas orgânicas por semana em Campinas e São Paulo, através de um sistema de encomendas que utiliza até a internet. Cerca de 60% dos itens que compõem as cestas são produzidos no sítio e o restante é adquirido de outros produtores orgânicos da região. 

            Homeopatia e Saúde -  A médica veterinária Leslie Almeida, consultora da Agrosuisse (RJ), apresentou os fundamentos e principais conceitos da homeopatia, os benefícios dessa ferramenta terapêutica na produção animal e as origens dos medicamentos homeopáticos, além de desfazer alguns preconceitos que cercam o tema, como o que prega a lentidão dos efeitos da homeopatia. “A homeopatia é lenta quando precisa ser lenta e rápida quando tem de ser rápida”. A médica homeopata destacou ainda que nenhum medicamento substitui o manejo adequado do rebanho.

            O médico Fernando Bignardi falou sobre a importância do consumo dos alimentos orgânicos para a promoção da saúde. “A alimentação orgânica é vital e melhora o sono, o funcionamento do intestino, o apetite, o humor e equilibra o estado de espírito das pessoas”. O médico estuda técnicas de produção de alimentos, como a agricultura natural e a agrosilvicultura, suas relações com o ambiente e as conseqüências para a saúde. “As doenças são fenômenos ecológicos cujas causas podem se encontrar no ambiente, distante do doente”, explicou. Em decorrência da observação da ação da floresta sobre pessoas com doenças crônicas, como o câncer, Fernando Bignardi fundou, em 1995, o Centro de Ecologia Médica “Florescer na Mata”, no município de Cotia (SP). Para o médico, o Vale do Ribeira é uma região ideal para a implantação de um centro dessa natureza.

            Comercialização – Ao abrir o debate sobre o tema comercialização no Seminário, o consultor e professor da UFPR, Ricardo Serra Borsatto, fez uma análise da atual estrutura de mercado dos produtos orgânicos e as alternativas para os produtores. “O único jeito dos pequenos produtores orgânicos darem certo na atividade é se cooperando, tendo um objetivo comum que não seja apenas o de ganhar dinheiro”. Segundo pesquisa apresentada, de cada R$ 10,00 de produto orgânico comprado num supermercado, apenas R$ 1,40 vão para o produtor. O restante fica com as distribuidoras e grandes redes de supermercados. “Por isso, é preciso organização da produção, da comercialização e dos próprios produtores”, defendeu o professor. O tema foi detalhado na mesa redonda que encerrou o evento, onde representantes da empresa Korin, AOVALE e Cooperorgânica debateram os entraves e as possibilidades na área da comercialização.

            O Seminário contou ainda com a apresentação das linhas de financiamento oferecidas pelo Banco do Brasil e o governo do Estado, além da realização de um dia de campo sobre práticas e produtos para melhoria do solo, coordenado pelo pesquisador da APTA de São Roque, Issao Ishimura. O dia de campo aconteceu no sábado, dia 24, na APTA de Pariquera-Açu. Paralelamente ao Seminário foi realizada a EXPO-ORGÂNICA do Vale do Ribeira – Feira de Produtos da Agricultura Orgânica, no pátio de entrada do anfiteatro do KKKK. A feira reuniu empresas como a Fertirrico, Itaforte, Agropecuária Zezinho Garrafão, Microbiol, Starvale, Humitec, Editora Agroecológica, Editora Health`s Books e organizações como a Aaocert, Apivale, Aovale, Apuvale, Aflovar, Sindicato Rural de Registro e Fundação Bradesco.

 

            Seminário reúne estudantes e produtores

            O III Seminário da Agricultura Orgânica do Vale do Ribeira contou com a participação de cerca de 150 pessoas durante os três primeiros dias e mais de 70 participantes no dia de campo. A promoção do evento foi da Associação dos Produtores Orgânicos do Vale do Ribeira (AOVALE), em parceria com a Prefeitura Municipal de Registro, SEBRAE-SP, SENAR, Sindicato Rural de Registro, CATIVAR, UNESP, ACIAR , Banco do Brasil, Sabesp, OIA-BRASIL e APTA Vale do Ribeira.

            Na abertura do Seminário participaram o prefeito de Registro, Clóvis Vieira Mendes, o presidente da Câmara Municipal, Raul Calazans, o técnico do Sebrae-SP, Roberto Nunes Pupo, o diretor do EDR-CATI, Luiz Antônio de Campos Penteado, o diretor do Departamento de Desenvolvimento Econômico, Manoel Chicaoka, o presidente da AOVALE, Antônio Silvério Alvarenga, e os representantes do Sindicato Rural/SENAR, Rubens Shimizu; da APTA, Edson Nomura, e da UNESP, Juliana Domingues. A apresentação do evento foi feita pela presidente da CATIVAR, Cláudia Bilche.